O agronegócio brasileiro, motor da economia nacional e pilar da balança comercial, navega em 2025 por um mar de incertezas e desafios. Apesar das projeções otimistas de uma safra recorde e do crescimento do Valor Bruto da Produção (VBP), uma “tempestade perfeita” de aumentos de custos, batizada no campo como “tarifaço”, comprime as margens de lucro, eleva a pressão inflacionária sobre os alimentos e acende um alerta sobre a competitividade dos produtos nacionais no mercado global. A escalada de preços em insumos essenciais, impulsionada por reajustes em energia elétrica, diesel e uma nova e complexa carga tributária, força o produtor rural a um malabarismo financeiro sem precedentes para manter a rentabilidade e a sustentabilidade de suas operações.
Em um ano que deveria ser de celebração, com a Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) projetando um VBP de R$ 1,43 trilhão – um aumento de 7,4% em relação ao ciclo anterior –, a realidade “da porteira para dentro” é de apreensão. A conta do “tarifaço” chega de todos os lados: nas bombas de combustível para abastecer o maquinário e transportar a safra, nas faturas de energia elétrica que alimentam pivôs de irrigação e agroindústrias, e na complexa teia de impostos que incidem sobre insumos fundamentais, como fertilizantes e defensivos. Este cenário de pressão de custos não apenas testa a resiliência do produtor, mas também levanta questões cruciais sobre o futuro do setor e seu papel como fornecedor de alimentos para o Brasil e o mundo.
Energia Elétrica: A Conta de Luz que Pesa na Irrigação e na Agroindústria
Um dos componentes mais pesados do “tarifaço” de 2025 é o custo da energia elétrica. Para um setor cada vez mais tecnificado, que depende da eletricidade para sistemas de irrigação, secagem, armazenagem e processamento, os reajustes anuais têm um impacto direto e significativo na planilha de custos. A Agência Nacional de Energia Elétrica (ANEEL) aprovou para 2025 um orçamento de R$ 49,2 bilhões para a Conta de Desenvolvimento Energético (CDE), um encargo embutido nas tarifas de todos os consumidores para custear subsídios e políticas setoriais. Esse valor representa um aumento expressivo e será, em grande parte, repassado para as faturas, atingindo em cheio os produtores rurais.
Para a agricultura irrigada, que responde por uma parcela vital da produção de alimentos e commodities, a energia é um insumo tão crucial quanto a água. O debate em torno dos subsídios e das tarifas especiais para a irrigação se intensificou. A Medida Provisória 1300/25 manteve o benefício de desconto na tarifa por um período de oito horas e meia diárias, porém, deu às distribuidoras o poder de definir esse horário. Em contrapartida, o Projeto de Lei 1638/25, apoiado por entidades do setor como a CNA, busca devolver ao produtor a autonomia para escolher o melhor horário para a irrigação, otimizando o uso de água e energia.
“A energia é um custo fixo que não para de subir. Em culturas como a do feijão, batata ou café, onde a irrigação é intensiva, a fatura de luz pode representar uma fatia considerável do custo de produção”, afirma João da Silva, produtor de café no sul de Minas Gerais. “Essa discussão sobre o horário do desconto é fundamental. Precisamos de flexibilidade para irrigar quando a planta mais precisa e quando o sistema elétrico tem menor demanda, o que seria benéfico para todos. Sem isso, o custo sobe e a nossa margem desaparece.”
O aumento da CDE, justificado pela necessidade de custear a expansão de fontes incentivadas e a micro e minigeração distribuída, cria um paradoxo: enquanto se busca uma matriz energética mais limpa, o custo recai sobre setores produtivos que são a base da economia. Para a agroindústria – frigoríficos, laticínios, usinas de açúcar e etanol –, que opera com consumo energético intensivo 24 horas por dia, o impacto é ainda mais severo, afetando a competitividade do produto processado tanto no mercado interno quanto no externo.
O Diesel e o Frete: O Custo Logístico que Encarece o Alimento na Mesa
Se a energia elétrica pesa nos custos dentro da fazenda, o preço do diesel impõe uma pressão esmagadora “da porteira para fora”. O Brasil, com sua vasta extensão territorial e dependência do modal rodoviário, vê no custo do frete um dos maiores gargalos para a competitividade. Em 2025, as projeções indicam um aumento entre 7% e 12% no valor do frete agrícola, uma consequência direta dos reajustes no preço do diesel, somados a fatores como a alta nos preços de pneus e a escassez de mão de obra qualificada.
O reajuste de R$ 0,22 no preço do litro do diesel anunciado pela Petrobras no início do ano gerou um efeito cascata. Desde o preparo do solo, plantio e colheita, que dependem de tratores e colheitadeiras movidos a diesel, até o escoamento da produção para os portos e centros de consumo, o combustível é onipresente. Para um país que movimenta safras de centenas de milhões de toneladas, cada centavo no preço do diesel se transforma em bilhões de reais em custos adicionais para a cadeia produtiva.
“É uma matemática simples e dolorosa”, explica Carlos Moreira, transportador de grãos que opera na rota entre Sorriso (MT) e o porto de Santos (SP). “O diesel representa quase metade do custo da minha operação. Quando o preço na bomba sobe, eu sou obrigado a repassar para o frete. Ninguém trabalha no prejuízo. Quem paga a conta no final é o produtor, que tem seu lucro reduzido, e o consumidor, que vê o preço do alimento subir no supermercado.”
Essa pressão logística é particularmente crítica para as novas fronteiras agrícolas no Centro-Oeste e no Matopiba (Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), regiões distantes dos grandes portos. A ineficiência da infraestrutura logística, com ferrovias e hidrovias subutilizadas, agrava o problema, tornando o agronegócio brasileiro refém do volátil e crescente custo do transporte rodoviário.
O Labirinto Fiscal: ICMS sobre Insumos e a Sombra da Reforma Tributária
O terceiro e talvez mais complexo componente do “tarifaço” é a carga tributária. A mudança na tributação do ICMS sobre fertilizantes, instituída pelo Convênio ICMS nº 26/2021, atinge seu ápice em 2025. A medida, que removeu a isenção do imposto e estabeleceu uma tributação gradual, já gerou um impacto estimado pela CNA em R$ 11,74 bilhões no custo de produção nos últimos quatro anos. O argumento inicial de que a medida incentivaria a produção nacional de fertilizantes não se concretizou na escala esperada, resultando, na prática, em um aumento de custo direto para o agricultor.
Com o Brasil importando cerca de 85% dos fertilizantes que consome, a tributação agrava a dependência do mercado externo e das flutuações cambiais. “Estamos pagando mais caro por um insumo essencial, e isso se reflete diretamente na nossa produtividade e rentabilidade. O fim da isenção do ICMS foi um golpe duro, que se soma a todos os outros aumentos”, lamenta um produtor de soja no Paraná.
Paralelamente, o setor se adapta à transição da Reforma Tributária, que extingue tributos como PIS, Cofins e ICMS para criar um Imposto sobre Valor Agregado (IVA) dual, composto pela Contribuição sobre Bens e Serviços (CBS) e pelo Imposto sobre Bens e Serviços (IBS). Embora a reforma prometa simplificação e transparência a longo prazo, o período de transição gera incertezas.
A nova legislação prevê uma cesta básica nacional de alimentos com alíquota zero e uma alíquota reduzida (40% da alíquota padrão) para diversos outros produtos alimentícios e insumos agropecuários. No entanto, a definição final e detalhada desses itens por meio de lei complementar ainda é aguardada com ansiedade. Há um temor generalizado de que a carga tributária efetiva sobre a cadeia produtiva possa aumentar, especialmente para setores que antes gozavam de regimes fiscais especiais. A reoneração gradual da folha de pagamento, que começa em 2025, também se soma à pilha de custos, encarecendo a contratação de mão de obra formal no campo.
Impacto nos Setores e a Luta pela Competitividade Internacional
O peso do “tarifaço” é sentido de forma distinta em cada cultura e cadeia produtiva. Na sojicultura, apesar de projeções de uma safra 2025/2026 recorde, com aumento de área plantada, o custo de produção por hectare exige maior eficiência. A competitividade da soja brasileira na China, nosso principal mercado, tem sido favorecida pela alta qualidade do produto e pelas tensões comerciais entre Pequim e Washington. Contudo, o aumento de custos internos pode erodir essa vantagem, tornando o produto brasileiro mais caro e vulnerável à concorrência.
Na pecuária de corte, o desafio é duplo. O aumento nos custos de grãos para a ração, somado aos custos de energia e logística, pressiona a rentabilidade. No mercado externo, o setor enfrenta barreiras tarifárias, como as impostas pelos Estados Unidos, que encarecem a carne brasileira e abrem espaço para concorrentes como Austrália e Uruguai. Manter a liderança global nas exportações de carne bovina exigirá não apenas eficiência produtiva, mas também uma gestão de custos cada vez mais rigorosa.
Para os produtores de hortifrútis e outras culturas que dependem intensivamente de irrigação e mão de obra, o cenário é igualmente desafiador. A pressão de custos pode desestimular investimentos em tecnologia e expansão, com o risco de repasse direto para o consumidor final, impactando a inflação de alimentos.
Diante desse cenário, o setor produtivo se mobiliza em busca de soluções. O Plano Safra 2025/2026, com a destinação de R$ 516,2 bilhões, é uma ferramenta crucial de mitigação, oferecendo crédito para custeio e investimento. No entanto, as próprias taxas de juros são influenciadas pelo cenário macroeconômico de controle fiscal do governo. A busca por eficiência energética, a adoção de práticas de agricultura de precisão para otimizar o uso de insumos e a pressão por melhorias na infraestrutura logística são estratégias que ganham urgência.
O agronegócio brasileiro prova, safra após safra, sua capacidade de superação e inovação. Contudo, o “tarifaço” de 2025 impõe um dos maiores desafios dos últimos anos. O equilíbrio entre a necessidade de arrecadação do Estado e a manutenção da competitividade do setor que sustenta a economia será o fator determinante para que o Brasil continue a desempenhar seu papel de protagonista na segurança alimentar global. O produtor rural faz a sua parte, investindo e produzindo, mas espera que as políticas públicas criem um ambiente de negócios mais previsível e menos oneroso, permitindo que a força do campo continue a impulsionar o país.